SURTO DE MICROCEFALIA: “O governo está sendo omisso. A situação é gravíssima, alerta especialista”

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O presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arbovirose, Artur Timerman, acredita que o Governo errou ao não agir antes contra o vírus da zika

A doença, transmitida pelo Aedes aegypti tem relação com o aumento dos casos de microcefalia no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde já foram 1.761 casos neste ano – no ano passado 147 bebês nasceram com o problema.

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Artur afirma que o Governo já devia ter desenvolvido um exame capaz de detectar a infecção em larga escala, como existe para a dengue e que, sem isso, não é possível nem saber qual a taxa de grávidas que contraiu zika e desenvolveu a microcefalia. “A situação é dramática”, afirma ele.


Artur foi entrevistado pelo periódico El Pais e a situação é mais grave do que se possa imaginar


Pergunta. Não há, de fato, dúvidas, de que os casos de microcefalia são causados por zika?

Resposta. Não há a menor dúvida. Só não posso dizer ainda qual a real dimensão desse problema, mas o que nós temos visto e discutido com vários colegas de todo o Brasil é que a situação é dramática.

P. O que leva a tanta certeza, já que não há casos no resto do mundo?

R. Em 1952 saiu já um trabalho, em fetos de camundongos fêmeas, que mostrava que o zika tinha uma afinidade pelo tecido neurológico desses ratinhos. Deixou-se essa informação armazenada e publicada na literatura médica, mas não se deu grande relevância porque não havia casos humanos. Esses casos humanos começaram a ser descritos em 2006 e 2007, em epidemias esporádicas nas regiões da floresta de Zika, na Uganda, onde o vírus havia sido descoberto na década de 1940. Em 2009, houve uma epidemia bem maior na Polinésia Francesa. Aqui no Brasil, no ano passado a gente já suspeitava que o vírus estava circulando, mas foi somente em abril deste ano que confirmaram 16 casos: oito em Natal e oito em Recife. Em agosto, colegas de Pernambuco começaram a notar o crescimento absurdo de casos de microcefalia. Eram dois, três casos diários. Ao mesmo tempo, um outro médico de Salvador começou a ver um número excessivo de casos de uma síndrome neurológica chamada Guillain-Barré.

Logo se supõe que pudesse ser o zika porque em um grande percentual dessas crianças que nasceram com microcefalia, as mães apresentaram no início da gravidez uma doença que parece dengue: dores no corpo, dores de cabeça, manchas no corpo e faziam o exame de dengue, dava negativo, faziam o exame de chikungunya, dava negativo, e aí os dois com muita perspicácia pensaram: há mais vírus que o mosquito transmite, que é o zika. Já há dois casos de mulheres, de duas grávidas, com fetos com microcefalia cuja pesquisa do líquido amniótico deu positivo para zika. Há pesquisas já de positivo para vírus em pessoas com Guillain-Barré, e acho muito importante de salientar é que na Polinésia, nessa epidemia de 2009, teve um aumento nos casos de microcefalia, mas eles não tinham relatado porque não tinham feito a associação.

P. E o que fazer agora?

R. A gente precisa saber a real extensão dos casos. É muito mais do que os que estão aparecendo até agora. Há grávidas que foram infectadas há seis meses. O que vai acontecer? Quando o vírus começar a circular, se já não está, no Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, só vamos começar a ver a repercussão em seis meses, oito meses, nove meses, ou seja, do meio para o fim do ano que vem. A urgência que a gente tem agora não é discutir a causalidade, que já está estabelecida. Nós precisamos saber a real dimensão. Quantas grávidas estão se infectando pelo vírus? Quais as chances de uma grávida se infectar e transmitir isso para seu feto? A gente só vai saber isso quando dispuser de um teste sorológico. A urgência número zero – e estamos atrasados porque se tem certeza de que o vírus está circulando aqui desde abril – é elaborar um teste de diagnóstico que possa ser usado em larga escala para sabermos quantos brasileiros estão infectados pelo zika e qual o percentual de casos de transmissão para o feto. São questionamentos que a gente ainda não consegue responder.

P. Qual a diferença entre o exame de sorologia e o da Proteína C Reativa (PCR), que já é feito?

R. Quando se quer detectar uma infecção causada por um vírus, há dois métodos que se pode usar. Um é a amplificação do material genético do vírus, que é o PCR. Ele detecta o próprio vírus, mas é trabalhoso, custoso, demanda um laboratório de excelência. Não é um método usado para testar grandes populações. Todos esses casos em que já se diagnosticou o zika foram determinados pelo PCR. Já a sorologia é um método que é mais usado em saúde pública porque detecta a formação de anticorpos na pessoa infectada. Quando o vírus contagia alguém, essa pessoa forma anticorpos que evidenciam que houve a infecção pelo vírus e podem ser vistos em um exame de sangue.

P. E por que isso não foi desenvolvido ainda?

R. Não é difícil desenvolver um teste sorológico. Precisa de dinheiro. Precisa financiar laboratórios de pesquisa para que eles se capacitarem para fazer esse teste, que é fundamental para dimensionarmos a real grandeza do que está acontecendo.

P. Há uma polêmica em relação ao conselho de se engravidar. A mulher, que puder, deve evitar?

R. Com toda essa insegurança, essa zona nebulosa que estamos vivendo… Eu entendo a gravidade do que vou falar, mas temos que falar para as mulheres evitarem a gravidez agora até que a gente tenha a real dimensão do problema. Espero que nós nos capacitemos o mais rapidamente possível para poder dimensionar isso e fazer a orientação mais adequada para que as pessoas exerçam sua escolha informadas.

P. Isso vale para todas as regiões ou só para o Nordeste, neste momento?

R. O maior número de casos de dengue neste ano foi em São Paulo. Se tem muitos casos de dengue, tem muitos mosquitos vetores, que transmitem também o chikungunya e o zika. Por que não teria casos dessas doenças aqui? Vírus e mosquito vão circular onde se fornece condições para tal. Mas não sabemos a real dimensão disso porque não temos recursos para saber [como a sorologia]. A sorologia para a dengue já é rotina, qualquer laboratório faz. Quantos desses casos de dengue já não eram zika ou chikungunya?

P. Então ainda não sabemos se o zika chegou ou não no Sudeste?

R. Sem dúvida. Quem tem certeza? Eu não tenho!

P. Mas se Sudeste tivesse muitos casos não seria natural ter muito mais microcefalia?

R. Aqui em São Paulo já temos quatro casos. Mas o que acontece na história das epidemias, e com a dengue é muito clássico, é que o vírus é introduzido pela região Norte e Nordeste do Brasil.

P. Por quê?

R. O vírus da dengue foi introduzido no Brasil por meio da América Central. E as populações do Norte e do Nordeste do Brasil tem contato muito mais frequente com aquelas populações do que o Sudeste. A história das epidemias mostra isso. Quando há pessoas infectadas pelo vírus, o Aedes vai se infectando. Essa interação inicial [entre o mosquito e pessoas], normalmente não é muito eficaz em termos de transmissão. Na história das epidemias, você vê que depois de um ou dois anos do início da circulação do vírus é que aumenta a taxa da transmissão. Por isso as epidemias começam com surtos isolados em alguns locais, começam a aumentar gradativamente o número de pessoas infectadas e você tem uma explosão de casos normalmente três, quatro anos depois de um determinado vírus ser introduzido em uma determinada comunidade. Então, provavelmente, o vírus zika já está circulando no Nordeste há três, quatro anos. E só agora que foi identificado. Aqui no Sudeste, provavelmente, ele já vem sendo introduzido há algum tempo, talvez não com a importância de casos que tenha no Nordeste. A explosão de casos de microcefalia agora é lá. Provavelmente isso vai se dar depois no Sudeste. A não ser que nós consigamos eliminar o mosquito, o que é impossível de acontecer, essa transmissão vai acontecer.

P. Então teremos anos bastante difíceis?

R. Pois é. Agora você entende porque eu trato a situação como dramática. Sem dúvida, é uma situação dramática, inédita.Todos os dias se acumulam novos e novos casos, mas não estamos conseguindo ligar os pontos. Quem vai coordenar e acelerar a nossa capacitação em fazer o diagnóstico? Qual o percentual de grávidas que têm zika agora? Quantas devem se infectar nos próximos seis meses? Qual a chance de uma grávida se infectar e passar isso para a criança? Temos que esclarecer o que está acontecendo.

P. Mas isso não demora para ser levantado?

R. Isso já deveria estar pronto. O teste sorológico não é difícil de ser elaborado. O país tem capacidade para isso, pode contar com recursos de fora do Brasil, com a Organização Mundial da Saúde e o CDC [centro de controle e prevenção de doenças, em português] norte-americano, que certamente nos ajudariam a acelerar isso. Tem que ser feito para ontem.

P. Na Bahia, desde o meio do ano já se sabia do aumentos da síndrome de Guillain-Barré. Já se sabia que ela era uma possível consequência do zika. O Governo já não deveria ter tomado providências contra o zika neste momento?

R. Não tenho dúvidas quanto a isso. Os relatos de Uganda, muito ruins, e mesmo os da Polinésia, que são melhorzinhos, mostravam que apenas cerca de 20% das pessoas infectadas pelo vírus zika têm manifestação clínica. Os mais de 60.000 casos suspeitos de zika na Bahia provavelmente seriam, na verdade, apenas 20% do total de casos de infectados pelo zika. É mais de um milhão de casos. A hora de valorizar isso era oito meses atrás. Nós perdemos muito tempo. Essa resposta ao zika é o comprovante maior de desestruturação de nosso serviço de atenção à saúde no Brasil.

P. Isso também se mostra na dificuldade de combater o Aedes aegypti ou é realmente difícil conseguir controlar ou zerar a quantidade de mosquitos?

R. Tomara que as próximas gerações consigam viver em uma cidade estruturada para receber pessoas e não mosquitos. Nós fizemos uma urbanização caótica, juntamos um monte de gente, sem fornecimento de água adequado, sem coleta de esgoto e de lixo. São cidades totalmente impermeabilizadas. Para as próximas gerações viverem em uma sociedade que seja mais salubre para as pessoas precisamos mudar o modelo de urbanização. Ter mais áreas verdes, controle de construções, ver qual o tipo de asfalto usado, se é poroso, permeável. Sei que não é para amanhã. Mas se quisermos mudar algo a médio e longo prazo é isso que temos que fazer: mudar o modelo de urbanização.

Hoje o Governo faz essas campanhas para que as pessoas cuidem das plantas de casa, não deixem água parada. Isso é importante, claro, mas é apagar o incêndio com copo de água. Vamos diminuir um pouco o risco, a quantidade de mosquitos, mas será ínfimo. O que é urgente agora e que, talvez, seja mais factível do que a minha utopia de urbanização, é isolar rápido esse vírus, ver suas caracterizações e tentar fazer uma vacina o mais rapidamente possível.

P. Mas ainda não conseguimos nem implementar a vacina de dengue, que já circula há tanto tempo…

R. A gente vai ter que torcer para o vírus do zika ser só um vírus e não ser como a dengue, que são quatro. E para o zika não ter mutação. Porque isso vai facilitar se fazer a vacina. A dengue são quatro sorotipos. A vacina é muito boa para um sorotipo, mas não serve muito para outro. Ninguém sabe se o zika tem só um sorotipo e que não sofre mutação. Temos que torcer para isso.

P. Não há coisas urgentes que o Governo pode fazer contra o mosquito, como fumigar as casas e as ruas, por exemplo?

R. Fumigar é praticamente usar DDT e os mosquitos já são quase todos resistentes ao DDT.

P. Então a solução mais próxima agora é mesmo a vacina?

R. A médio prazo, sim. Agora, a curto prazo é orientar as pessoas sobre os hábitos do mosquito. É um mosquito que voa de manhã, entre 9h e 13h , voa baixo, a no máximo 1,5 metro. É preciso usar calça e blusa de manga longa, meia. Colocar repelentes para os quais ele não é resistente, como os de Icaridina. DDT e citronela não têm efeito.

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