Quem é a advogada que mora nas ruas e faz faxina para sobreviver? Conheça Rosana da Silva

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Aqueles que passam frequentemente pela Avenida Beira Mar Norte veem no canteiro, próximo ao Shopping Iguatemi, uma senhora sentada ao lado de uma mala, segurando a placa em que está escrito: “Faxina R$ 60”. Por trás do anúncio escrito à mão e rabiscado com canetinha preta, há uma advogada de 49 anos, nascida em Itanhaém (SP), que tenta há quase uma década reverter sua atual situação de pobreza e desemprego.
rosana002Formada pela Faculdade de Direito de Osasco em 1995, Rosana da Silva trabalhou em um pequeno escritório. Ao mesmo tempo, deu aulas sobre Direito Civil para estudantes de cursos técnicos e preparatórios para concursos públicos, tanto para adquirir mais conhecimento como para ganhar um salário extra.

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Nunca foi casada, não tem filhos e foi criada pela família adotiva que segue a doutrina das Testemunhas de Jeová. Foi pelo atrito, que começou em fevereiro de 2004, com seguidores dessa religião e chefes de trabalho no escritório de advocacia – dois Procuradores aposentados de Osasco – que Rosana depende hoje dos poucos que a contratam como diarista.

A briga começou há quase dez anos, quando diz ter sido vítima de assédio moral no escritório que trabalhou por quase três anos e no colégio dos cursos preparatórios. Ela conta que sofreu perseguição, principalmente, no escritório dos dois sócios. Quando percebeu que os eles estavam envolvidos no assédio, sabia que não iria conseguir enfrentá-los, por serem influentes na cidade, e pediu demissão.

Sem esse emprego, continuou trabalhando como professora, mas na mesma semana foi demitida. Na escola, o assédio moral também estava presente, por parte dos alunos. Conta que estava fragilizada com a perda do espaço no escritório e que achou que fosse enlouquecer. “Foi aí que eu percebi que a minha vida estava arruinada.”

Procurou ajuda de psicólogos e durante sete meses tentou entender como havia perdido dois empregos ao mesmo tempo. O dinheiro que havia poupado seria suficiente para morar por mais alguns meses no quarto alugado e para se alimentar. Para recuperar o equilíbrio, e não passar o dia chorando, ofereceu aulas particulares, palestras sobre Direito Ambiental (que estudou sozinha durante anos) e procurou qualquer tipo de emprego.  Depois de um tempo, precisou morar com uma amiga, Testemunha de Jeová, e voltou a seguir a religião.

Não adiantou. Não recebeu nenhuma proposta de emprego, concluiu que era vítima de perseguição e entendeu que os casos estavam todos interligados: o grupo religioso e as pessoas no trabalho. No final de 2004, fez uma queixa na Ordem dos Advogados/SP, acusando o assédio dos patrões, mas o processo nunca seguiu adiante. Levou o caso ao Ministério Público Federal e também ficou sem resposta. “Na época, pedi para o juiz uma avaliação de sanidade mental feita por um psiquiatra”. O pedido foi indeferido.

No ano seguinte, sem nenhum retorno dos processos encaminhados, voltou a morar na casa da mãe adotiva, Testemunha de Jeová. A mãe se mostrou contrariada e foram 14 meses de preconceito e violência física. “Foi um inferno. Ela me chamava de vadia, louca e criminosa.” Como a mãe pertencia ao grupo religioso, Rosana teve certeza de que também estava envolvida com os fatores que a levaram ao desemprego e declínio de sua situação financeira.
Sem dinheiro, saiu da casa deixando roupas, livros e computador.  Com apenas uma  bolsa, onde carregava itens de higiene pessoal, morou durante um ano e meio em albergues de São Paulo. “Mais um bloco de perseguição e violência me cercando. E o pior, para quem trabalhou a vida toda, era não ter nada para fazer.” A OAB solicitou que ela assinasse um termo de incapacidade para o trabalho, recebendo em troca o valor correspondente a um salário mínimo, mas Rosana recusou.

O tempo em um dos albergues femininos da capital se esgotou e precisaria viver na rua. Foi aí que decidiu sair da cidade. De carona com caminhoneiros – que achavam que fosse prostituta –, foi até Porto Alegre. Mas a perseguição e o “terrorismo religioso e político” não pararam: “A mulherada ficava em cima. Ficavam coladas, como se fossem deitar na mesma cama que você”. Decidiu que não ficaria mais em albergues.

Está em Florianópolis desde 2008 e foi aqui que pintou a placa. São poucas pessoas que a contratam para fazer faxina. Dorme embaixo da passarela de pedestres em frente ao Shopping Iguatemi e é diariamente ofendida, tanto verbalmente quanto por gestos obscenos. “Só esse ano, eu já acordei três vezes com caras com as calças abaixadas.”

Rosana tem um olhar firme, mas assustado. Não gosta do dinheiro que lhe é dado, acredita que perde valor e que deve ser conquistado com o trabalho. Lamenta quando diz que, às vezes, precisa simplesmente aceitar, quando não tem nada para comer. Lava as roupas em qualquer torneira e onde não tenha quem a mande embora. É uma pessoa simples, mas não deixa de lutar na justiça e diariamente para sair da miséria. “Quer um golinho de água? Mas desculpa, eu bebo direto do gargalo”, oferece humildemente. Só o que deseja hoje é um emprego que a tire da rua. “A gente não pode desistir, né?”

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